quarta-feira, 26 de agosto de 2026

A VALQUÍRIA PELO POETA-ESCRITOR ALEXSANDRO ALVES

 https://youtu.be/hmMsQ-RVKPg?is=_utckTAVHQT5NPLM

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A VALQUÍRIA


Escritor-poeta Alexsandro Alves

Membro da UBERN e da SPVARN 


O ato III da Valquíria começa com A cavalgada das valquírias, música que engloba o prelúdio e os primeiros cinco minutos da cena 1. Essa música, juntamente com o Coro Nupcial, de Lohengrin, é a música mais famosa de Wagner, seu cartão de visitas.


Tornou-se tão popular que Wagner escreveu uma versão de concerto, sem as vozes. Mas aqui temos a partitura original.


Na cena, oito valquírias esperam Brünnhilde para prosseguirem rumo ao Walhalla. Elas brincam com os guerreiros mortos e os cavalos. 


Musicalmente temos os motivos das valquírias e o grito de guerra "Hoiotoho! Haiha!", apoiados por uma orquestração primorosa, como sempre em Wagner, onde predominam trombones e trompas e os violinos e madeiras em movimentos que sugerem o soprar aventureiro de ventos.


Heidegger diz que esse clima de aventura que perpassa essa música derruba qualquer resistência. É encantadoramente poética e selvagem, tem um estranho fascínio guerreiro e um espiríto ao mesmo tempo doce e marcial.


Num determinado momento, Brünnhilde aparece e as irmãs notam algo estranho. Ela carrega uma mulher e não um guerreiro caído. 


Brünnhilde explica que se trata de Sieglinde, irmã e mulher de Siegmund, filhos de Wotan com uma mortal. Ou seja, irmã delas.


A valquíria diz que desobedeceu Wotan ao proteger Siegmund e ainda fugir com Sieglinde. As valquírias agora temem pela vida das duas. Uma delas alerta que nuvens vermelhas se aproximam - o Pai da Guerra cavalga seu corcel.


Nesse instante Sieglinde desperta e pergunta por que não morreu em combate e pede para que Brünnhilde a transpasse com a lança.


Mas a valquíria quer que ela fuja para o leste. As outras valquírias alertam que no leste, Fafner, o gigante que se transformou em dragão, vagueia pela floresta, não é lugar para uma mulher indefesa. Brünnhilde não concorda: Wotan teme Fafner, e assim ela estará ao menos a salvo da ira do deus. E para convencer Sieglinde, diz que está grávida.


Ela agora pede ajuda a todas as valquírias. E esse momento maravilhoso, a partir de 15:25, é um daqueles em que Wagner suspende nossas emoções e a segura com uma música radiante até que resolva liberá-las em uma sequência de compassos avassaladores, num fluxo sinfônico sem igual.


Brünnhilde entrega os fragmentos da espada de Siegmund para a irmã e batiza o filho dos gêmeos ainda no ventre da mãe: se chamará Siegfried. O motivo de Siegfried, surge aqui, sob a voz de Brünnhilde, se desenha mas ainda não se completa, e então Sieglinde, com todo o ímpeto, poder, mente e força, leva a música a um ponto everestiano:


Ó, herstes Wunder! Ó, nobre milagre! (16:50). Surge o motivo da Redenção pelo amor, na melodia dominante de Sieglinde. É um momento poderosíssimo e arrebatador. Nosso espírito é colocado em alturas além da Terra, em órbita.


Após isso, ela foge para o leste. 


CENA 2


Wotan entra com toda a fúria. As valquírias tentam proteger Brünnhilde, mas Wotan as dispersa. Com toda a autoridade, profere a senteça: perderá os poderes de valquíria, será colocada em um sono até que algum homem a desperte e, desperta, será esposa desse homem, trabalhando dia e noite até que morra. Esse destino é tão macabro que as valquírias fogem em cavalgada. Ficam no palco apenas ele e Brünnhilde.


CENA 3


A última cena da Valquíria é a mais bela, poderosa e musicalmente mais majestosa da partitura.


Apenas pai e filha. Um diálogo sobre culpa e dever. A cena começa tímida, mas aos poucos vai ganhando vigor, à medida que tanto ele quanto ela expõem suas virtudes, suas fraquezas, suas culpas e razões.  Brünnhilde deseja amenizar o castigo paterno, pede que seja erguido ao seu redor um círculo de fogo, para que apenas um único homem possa despertá-la. 


É um momento de grande força musical e dramática que alcança o sublime quando Wotan se despede da filha (52:47): Leb wohl, du Kühnes, herrliches Kind! Adeus, maravilhosa, orgulhosa criança! 


O cantor nem precisa estar emocionado, o acúmulo de tensão que aqui é finalmente liberado, faz a música em si ser emocional. É tanta verdade e glória distribuídos de forma descomunal, que se as geleiras do Polo Norte e da Antártida pudessem cantar e cantassem esse momento, o mundo inteiro seria destruído pelas águas em derretimento. 


É o sangue como vulcões, milhões de Cracatoas de uma única vez. 


Wotan foi inteiramente convencido pela filha. Ela mudou o Destino de novo.


E agora, sob o tema de Siegfried quase completo, ele setencia (54:54): Apenas um te libertará, aquele que será mais livre que eu, o deus! 


A música se acalma quando Wotan diz: Der Augen leuchtendes Paar: Os teus olhos cintilantes. E, momentos depois,  então a beija nos olhos. Ela adormece.


Wotan invoca Loge, deus do fogo, para erguer um círculo de fogo ao redor do corpo de Brünnhilde (1:02:35): Loge, hör! Lausche hierher! Loge, escute! Venha aqui! Ao término da magia de Loge, Wotan canta, sob o tema pungente de Siegfried (1:04:29): Wir meines Speeres, spitze fürchtet, durchschreite das Feuer nie! Aquele que temer minha lança, não atravesse esse círculo de fogo! 


Aí então, com uma grandeza e nobreza sem precedentes, pela primeira vez, o tema de Siegfried é completamente anunciado. Toda a orquestra se abre enlevada como em transe místico. Após isso, os violoncelos irrompem com o tema do amor e as harpas saltitam o do fogo. Em determinado momento, surge o tema do destino, do ato II, duas vezes. 


É impressionante como o tema de Siegfried se parece com o da maldição. 


E Siegfried será de fato, uma maldição à moral tradicional, nascido do tabu do incesto entre irmãos. Esse detalhe não é do mito, é mais uma modificação de Wagner. 


Os últimos acordes são delicadíssimos e deixados para as harpas. 


A Valquíria conclui de forma encantada e suave.

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