https://youtu.be/hmMsQ-RVKPg?is=_utckTAVHQT5NPLM
https://youtu.be/hmMsQ-RVKPg?is=_utckTAVHQT5NPLM
A VALQUÍRIA
Escritor-poeta Alexsandro Alves
Membro da UBERN e da SPVARN
O ato III da Valquíria começa com A cavalgada das valquírias, música que engloba o prelúdio e os primeiros cinco minutos da cena 1. Essa música, juntamente com o Coro Nupcial, de Lohengrin, é a música mais famosa de Wagner, seu cartão de visitas.
Tornou-se tão popular que Wagner escreveu uma versão de concerto, sem as vozes. Mas aqui temos a partitura original.
Na cena, oito valquírias esperam Brünnhilde para prosseguirem rumo ao Walhalla. Elas brincam com os guerreiros mortos e os cavalos.
Musicalmente temos os motivos das valquírias e o grito de guerra "Hoiotoho! Haiha!", apoiados por uma orquestração primorosa, como sempre em Wagner, onde predominam trombones e trompas e os violinos e madeiras em movimentos que sugerem o soprar aventureiro de ventos.
Heidegger diz que esse clima de aventura que perpassa essa música derruba qualquer resistência. É encantadoramente poética e selvagem, tem um estranho fascínio guerreiro e um espiríto ao mesmo tempo doce e marcial.
Num determinado momento, Brünnhilde aparece e as irmãs notam algo estranho. Ela carrega uma mulher e não um guerreiro caído.
Brünnhilde explica que se trata de Sieglinde, irmã e mulher de Siegmund, filhos de Wotan com uma mortal. Ou seja, irmã delas.
A valquíria diz que desobedeceu Wotan ao proteger Siegmund e ainda fugir com Sieglinde. As valquírias agora temem pela vida das duas. Uma delas alerta que nuvens vermelhas se aproximam - o Pai da Guerra cavalga seu corcel.
Nesse instante Sieglinde desperta e pergunta por que não morreu em combate e pede para que Brünnhilde a transpasse com a lança.
Mas a valquíria quer que ela fuja para o leste. As outras valquírias alertam que no leste, Fafner, o gigante que se transformou em dragão, vagueia pela floresta, não é lugar para uma mulher indefesa. Brünnhilde não concorda: Wotan teme Fafner, e assim ela estará ao menos a salvo da ira do deus. E para convencer Sieglinde, diz que está grávida.
Ela agora pede ajuda a todas as valquírias. E esse momento maravilhoso, a partir de 15:25, é um daqueles em que Wagner suspende nossas emoções e a segura com uma música radiante até que resolva liberá-las em uma sequência de compassos avassaladores, num fluxo sinfônico sem igual.
Brünnhilde entrega os fragmentos da espada de Siegmund para a irmã e batiza o filho dos gêmeos ainda no ventre da mãe: se chamará Siegfried. O motivo de Siegfried, surge aqui, sob a voz de Brünnhilde, se desenha mas ainda não se completa, e então Sieglinde, com todo o ímpeto, poder, mente e força, leva a música a um ponto everestiano:
Ó, herstes Wunder! Ó, nobre milagre! (16:50). Surge o motivo da Redenção pelo amor, na melodia dominante de Sieglinde. É um momento poderosíssimo e arrebatador. Nosso espírito é colocado em alturas além da Terra, em órbita.
Após isso, ela foge para o leste.
CENA 2
Wotan entra com toda a fúria. As valquírias tentam proteger Brünnhilde, mas Wotan as dispersa. Com toda a autoridade, profere a senteça: perderá os poderes de valquíria, será colocada em um sono até que algum homem a desperte e, desperta, será esposa desse homem, trabalhando dia e noite até que morra. Esse destino é tão macabro que as valquírias fogem em cavalgada. Ficam no palco apenas ele e Brünnhilde.
CENA 3
A última cena da Valquíria é a mais bela, poderosa e musicalmente mais majestosa da partitura.
Apenas pai e filha. Um diálogo sobre culpa e dever. A cena começa tímida, mas aos poucos vai ganhando vigor, à medida que tanto ele quanto ela expõem suas virtudes, suas fraquezas, suas culpas e razões. Brünnhilde deseja amenizar o castigo paterno, pede que seja erguido ao seu redor um círculo de fogo, para que apenas um único homem possa despertá-la.
É um momento de grande força musical e dramática que alcança o sublime quando Wotan se despede da filha (52:47): Leb wohl, du Kühnes, herrliches Kind! Adeus, maravilhosa, orgulhosa criança!
O cantor nem precisa estar emocionado, o acúmulo de tensão que aqui é finalmente liberado, faz a música em si ser emocional. É tanta verdade e glória distribuídos de forma descomunal, que se as geleiras do Polo Norte e da Antártida pudessem cantar e cantassem esse momento, o mundo inteiro seria destruído pelas águas em derretimento.
É o sangue como vulcões, milhões de Cracatoas de uma única vez.
Wotan foi inteiramente convencido pela filha. Ela mudou o Destino de novo.
E agora, sob o tema de Siegfried quase completo, ele setencia (54:54): Apenas um te libertará, aquele que será mais livre que eu, o deus!
A música se acalma quando Wotan diz: Der Augen leuchtendes Paar: Os teus olhos cintilantes. E, momentos depois, então a beija nos olhos. Ela adormece.
Wotan invoca Loge, deus do fogo, para erguer um círculo de fogo ao redor do corpo de Brünnhilde (1:02:35): Loge, hör! Lausche hierher! Loge, escute! Venha aqui! Ao término da magia de Loge, Wotan canta, sob o tema pungente de Siegfried (1:04:29): Wir meines Speeres, spitze fürchtet, durchschreite das Feuer nie! Aquele que temer minha lança, não atravesse esse círculo de fogo!
Aí então, com uma grandeza e nobreza sem precedentes, pela primeira vez, o tema de Siegfried é completamente anunciado. Toda a orquestra se abre enlevada como em transe místico. Após isso, os violoncelos irrompem com o tema do amor e as harpas saltitam o do fogo. Em determinado momento, surge o tema do destino, do ato II, duas vezes.
É impressionante como o tema de Siegfried se parece com o da maldição.
E Siegfried será de fato, uma maldição à moral tradicional, nascido do tabu do incesto entre irmãos. Esse detalhe não é do mito, é mais uma modificação de Wagner.
Os últimos acordes são delicadíssimos e deixados para as harpas.
A Valquíria conclui de forma encantada e suave.