terça-feira, 8 de setembro de 2026

"O ESTRANGEIRO" DE ALBERT CAMUS NO "PÁGINAS VÍVIDAS"


Participantes do Clube de Leituras "Páginas Vívidas" circundam a coordenadora - Dra. Conceição Guimarães, sentada, ela traja vestido em tom claro


Dra. Conceição Guimarães
Coordenadora do Clube de Leituras Páginas Vívidas
 
Evento realizado na Biblioteca Estadual Câmara Cascudo

Localização: Rua Potengi, Petrópolis, Natal-RN, Brasil

Horário: das 10h às 12h

Data:  todo último sábado de cada mês

Entrada: 
Aberto aos leitores da cidade e aos seus visitantes 

Instante de leituras e  das descobertas contidas nas entrelinhas da escrita



Leitores participantes 






O Estrangeiro, de Albert Camus, no "Clube do Livro ": uma imersão no Absurdo.


Conceição Guimarães

(Escritora e Pesquisadora)


Existem livros que lemos; existem livros que nos leem. O Estrangeiro, publicado por Albert Camus em 1942, pertence a esta segunda categoria. No sábado (29/08/2026) o Clube do leitura “Páginas Vivas" se reuniu para debater sua prosa seca e implacável, além da indiferença de Meursault diante da vida. O que se seguiu foi uma conversa que transcendeu o acadêmico, o político e o profundamente humano. 

I. O romance filosófico: quando a ficção recria o pensamento. 

Para Camus, a literatura concretiza a filosofia em ação e O Estrangeiro é, de fato, um livro filosófico, mas ultrapassa o sentido didático de uma tese filosófica, mesmo tendo sido concebido em diálogo com seu ensaio O Mito de Sísifo e publicado no mesmo ano em que o autor franco-argelino desenvolve seu conceito de “Absurdo”. A prosa de O Estrangeiro é nua e seca como seu protagonista. Frases curtas, justapostas, sem concessões à emoção: uma escrita que parece não ter sentido e nenhum significado transcendente. Meursault rejeita as convenções sociais impostas a ele. O entrelaçamento de gêneros literários, como o diário íntimo, a prosa poética e o ensaio, leva o absurdo a trabalhar no próprio tecido da história. 

Não o considero um romance de tese, como afirmam alguns críticos; é a manifestação literária de uma visão de mundo. 

II. Os invisíveis da história: argelinos, árabes e o silêncio pós-colonial.

A invisibilidade da história franco-argelina e o silêncio pós-colonial, talvez, tenha sido o ponto mais importante do nosso debate. O enredo de O Estrangeiro se passa na Argélia Francesa, e Meursault é um pied-noir — um colono francês nascido em solo argelino. O romance foi escrito antes do movimento revolucionário nacionalista que levaria à independência da Argélia, entre 1954 e 1962. O próprio Camus era franco-argelino, e, ainda hoje, mesmo à distância, não podemos descartar a independência, nem a forma como ela ainda se faz presente. Contudo, o que mais perturbou o grupo de debate nesta obra talvez tenha sido uma ausência gritante: o árabe assassinado por Meursault na praia não tem nome, não tem voz, não tem história. Os personagens árabes em O Estrangeiro “murmuram na prisão, estão em silêncio nas ruas e espaços públicos de Argel”; no livro eles são apenas “ferramentas artísticas”.

A independência da Argélia, em 1962, não trouxe a paz imediata, sendo sucedida por uma guerra civil violenta que reverberou pelo país por décadas. O silêncio de Camus sobre os árabes em O Estrangeiro — ou melhor, sobre a representação deles como sombras de si mesmo — ressoou para nós como uma ausência que a história posterior tornou ainda mais evidente. Não por acaso, o escritor argelino Kamel Daoud escreveu, sob a perspectiva do árabe assassinado, O caso Meursault em espelhamento de O Estrangeiro. Daoud deu um nome ao árabe morto por Meursault, Moussa, e uma voz. A literatura sempre tenta preencher o que a história deixa vazio.

III. A Ruptura com Sartre: Existencialismo e Absurdo. 

O debate cresceu quando chegamos a Camus e Jean-Paul Sartre, que, a princípio, eram amigos e aliados. Sartre saudou O Estrangeiro como “uma obra clássica, uma obra de ordem, composta para o absurdo e contra o absurdo.” A amizade não sobreviveu à Guerra Fria. À época, Camus havia escrito O Homem Revoltado (1951), um romance sobre a opressão das ditaduras comunistas, atacando-as. Sartre, um marxista convicto, rejeitou a perspectiva filosófica de Camus em sua revista Temps Modernes e rompeu com o amigo. A ruptura, ocorrida em 1952, teve a violência em seu cerne devido ao ambiente ideológico da Guerra Fria, mas também foi o fim de ideais filosóficos comuns. Para Sartre, o homem está “condenado a ser livre” e deve definir sua essência na ação. Para Camus, o absurdo é universal e absoluto: uma desconexão irreparável entre a razão humana e um mundo que não responde às suas perguntas. Enquanto Sartre via o engajamento político como uma saída do nada existencial, Camus rejeitava qualquer ideologia que prometesse redenção histórica. “Camus foi confundido com um defensor dos preceitos existencialistas de Sartre”. Uma comparação que Camus detestava, lê-se afirmações desse tipo em alguns de seus artigos. O existencialismo sartreano constrói ideias e oferece justificativas; Camus trata da compreensão da existência através da lente da experiência vivida. 

Essa fissão filosófica entre Sartre e Camus ressoou entre os leitores do “Páginas Vívidas” como conflito entre a ação política e recusa lúcida, entre engajamento e revolta silenciosa. 

IV. Meursault e a passividade do absurdo

E, claro, voltamos a Meursault. Como entendemos sua passividade? Como se lê sua indiferença à morte da mãe, ao assassinato que comete e ao julgamento que o condena? A apatia de Meursault se manifesta em uma atitude absurda — a famosa frase “tanto faz”, que ele repete como um mantra. Para Camus, isso não decorre de um defeito de caráter; Meursault se recusa a ser falso ou a mentir. É uma postura filosófica. Ele não chora nem sente remorso quando a sociedade espera que o faça e não procura sentido no mundo quando a lógica não existe. À sua maneira, ele é autêntico: incapaz de enganar a si mesmo ou aos outros. Mas há um preço. Meursault não age; ele é agido. Ele mata “por causa do sol” — uma desculpa que os juízes que o julgam acham ridícula, mas para ele está completamente em sintonia com o absurdo da experiência humana. O sol é tão arbitrário quanto qualquer outra razão; em um universo sem sentido, todas as motivações são igualmente vazias. 

Vimos em Meursault um culpado, mas também observamos a própria engrenagem do absurdo, que torna impossível viver em um vazio existencial que também é absurdo. Por isso é que a passividade de Meursault é o estágio zero do Absurdo: o nada. 

Camus propõe que a única resposta digna do homem está em seu ensaio, O Mito de Sísifo. Esse livro é um estudo filosófico sobre um mito grego que narra a condenação do poderoso rei de Corinto, Sísifo, pelos deuses. Ele deveria rolar uma pedra morro acima por toda a eternidade e essa rocha sempre voltaria a descer. Este gesto de Sísifo, defende Camus, é o gesto do homem moderno que rola sua pedra todos os dias: levanta-se, vai trabalhar, volta para casa e dorme para repetir as mesmas tarefas tediosas no dia seguinte. Mas Camus diz que, ainda assim, Sísifo é feliz, apesar de... A ideia filosófica defendida por Camus consiste em que, apesar do absurdo de sua existência, o homem moderno deve encontrar a felicidade.

Encerramento: as vozes do círculo. 

Falamos sobre todas essas questões e fechamos o livro. A autorreflexão veio em enxurradas de perguntas. "Não consigo decidir se admiro Meursault ou se o condeno", admitiu um dos leitores; outro afirmou categoricamente que o condenava pelos crimes que cometeu: "Ele é honesto, sim. Mas que tipo de honestidade é essa que mata e não se importa?". "Um terceiro participante trouxe a perspectiva histórica: "O que me perturba não é Meursault. É o árabe anônimo." É a Argélia que Camus amava, mas não conseguia ver por completo.

Para mim, que coordenei o debate, não se tratava de admirar ou condenar. 

Tratava-se de reconhecer que o absurdo é a realidade e que todos nós temos que encontrar nossa própria maneira de vivê-lo.

O livro é brilhante e não se esgota na primeira nem na décima leitura. E assim continuamos, por mais de duas horas, tecendo e destecendo interpretações. O Estrangeiro não nos dá respostas, e essas nunca foram as intenções da filosofia nem de Camus. Camus nos deu, em vez disso, a capacidade de fazer perguntas sobre o sentido da vida e a indiferença do mundo. Justiça e hipocrisia. O que significa ser estrangeiro, de fato: estrangeiro, não apenas em uma terra, mas em uma existência na qual o universo se recusa a se explicar para nós.

Quando nos despedimos, alguém citou a última frase de Meursault, antes de sua execução: “Pela primeira vez, abri-me à terna indiferença do mundo.” Não era rendição de Meursault, concluímos. Era, talvez, o único tipo de paz possível diante de um universo indiferente. Nessa paz incerta, deixamos a manhã para trás com o eco das páginas vívidas que compartilhamos.

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