sexta-feira, 6 de novembro de 2026

CONCEIÇÃO GUIMARÃES LÊ A ALMA DE QUATRO ARTISTAS NO IX SALÃO DORIAN GRAY CALDAS

Entre texturas, cores e silêncios: a alma de quatro artistas na Pinacoteca Potiguar 

Por: Conceição Guimarães (Crítica Literária e pesquisadora em Literatura e Cultura)

Na manhã de 31 de outubro de 2026, às 09h30, a Pinacoteca Potiguar abriu suas portas para a vernissage que promete ficar gravada na retina e no imaginário de quem a visitar. Muitas obras estão expostas, entre elas, as dos artistas Alfredo Neves, Carlos Gomes, Jayr Peny e Sonia Regina Maria de Macedo, que instauraram um diálogo fascinante e multifacetado.

São obras que testemunham o nosso tempo e a ponte para o indizível. Ao percorrer o espaço expositivo, percebe-se que a curadoria de Manoel Onofre Neto teve a simples e feliz confluência com esses quatro grandes nomes, convidando-nos a uma viagem por diferentes dimensões da percepção humana.

A Polifonia Visual

Cada artista trouxe consigo um universo particular, e o que se vê expostos nas paredes — ora tintas de um azul-turquesa vibrante, ora um amarelo solar — é um caleidoscópio de expressões.

Alfredo Neves nos apresenta a materialidade e a memória. Sua obra “O Moinho, o Sal e uma Janela do Tempo”, apresenta, sob técnica de colagem e gotejamento, os símbolos principais de Macau: o sal, o moinho, o Rio Açu/Piranhas e uma janela abstrata para o futuro. A tela é carregada de texturas e camadas que parecem querer saltar da moldura. Há algo de tátil em sua composição; é como se o tempo esculpisse com espátulas e pigmentos as paisagens internas e externas que resistem ao esquecimento.

A obra "As atrações do circo", de Carlos Gomes revela-se como um convite encantador a um universo lúdico e profundamente expressivo, onde a simplicidade da forma encontra uma potência narrativa singular. O artista adota uma estética que flerta com o primitivismo moderno e a arte naïf, priorizando a espontaneidade e a imaginação sobre o rigor acadêmico.

Já Jayr Peny manifesta-se como um figurativismo geométrico e surrealizante: A obra "O feijão da dona Lurdes", pertencente à série Colcha Sintética, é uma celebração vibrante da cultura popular brasileira, transfigurada pela lente única de Peny. A tela é um testemunho eloquente de sua maturidade artística, elevada a uma dimensão quase mitológica através de uma geometria cromática arrebatadora. A figura humana desconstruída de Dona Lurdes é a realidade transmutada; seu braço erguido e a mão espalmada, recriam o ritual sagrado do lar e a cozinha, não é apenas uma cozinha: é um espaço mental e afetivo à la Salvador Dalí.

Sonia Regina Maria de Macedo nos empresta seus olhos para o mundo. Com um rigor estético impecável registra na foto “Terra Refletida” uma formação rochosa refletida sobre a lâmina d’água, criando um diálogo entre matéria, luz, cor e reflexo. É a natureza observada com precisão e poesia, um convite a olhar para o ordinário e ver o extraordinário. O espelhamento aproxima terra e mar, revelando a singularidade da paisagem e sua relação com a identidade e o sentimento de pertencimento ao território potiguar.

A Celebração da Arte e do Encontro

As fotografias da vernissage revelam mais do que uma exposição; revelam um rito de celebração e comunhão. Nas escadarias da Pinacoteca, o sorriso largo de dezenas de pessoas — amigos, artistas, entusiastas e a comunidade — é a prova de que a arte só se completa quando é compartilhada.

O clima é de alegria e reconhecimento. Vemos convidados com suas taças de espumante, rindo, conversando e posando ao lado das obras. A presença de um público diverso, incluindo pessoas com mobilidade reduzida, reforça a democratização da cultura e da acessibilidade que a Pinacoteca Potiguar busca proporcionar. O famoso selfie coletivo na escadaria eterniza o evento e a atmosfera de pertencimento.

Reflexão

A mostra na Pinacoteca Potiguar transcende a simples exposição de quadros e fotografias. Num mundo cada vez mais acelerado, deter-se diante da arte naïf, de Carlos Gomes, da textura densa de Alfredo Neves, do figurativismo geométrico de Jayr Peny ou da clareza fotográfica de Sonia Regina é um convite à contemplação interior e exterior humana.

A data de 31 de outubro de 2026 já está marcada nos catálogos e na história cultural do nosso Estado. Se ainda não teve a oportunidade de visitar, faça um favor ao seu espírito: vá à Pinacoteca Potiguar, respire fundo e deixe-se perder, ou se encontrar, nas obras dos artistas que lá estão e, em especial, desses quatro excelentes artistas.

A arte espera por você.














Fotos do acervo da escritora Conceição Guimarães 


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